segunda-feira, 11 de abril de 2022

Fazenda Guapará

Escondida na serra ao sul de Resende, a fazenda Guapará, refletia o desejo de seu fundador de ter um lugar tranquilo e pouco acessível para poder cultivar o melhor café já visto no estado do Rio de Janeiro. Tinha cerca de 3.300 alqueires, com apenas 56 funcionários, é um mistério até hoje como ela produzia a quantidade de café exportada. O café Guapará era conhecido e almejado por muitos, desde membros das altas rodas da política brasileira a membros da nobreza britânica.

Foto de Dom Martim Vaz Guimarães
A propriedade era dividida em quatro grandes seções: O casarão principal, a vila dos agricultores, a fábrica e o território de plantio, possuindo no total cerca de  150 edifícios, destinados à casa dos funcionários, máquinas de café, pequenas oficinas, depósitos e, é claro, o casarão sede. Havia cerca de 70 casas na vila de funcionários de Guapará, era como uma pequena cidade, com farmácia, uma escola ítalo-brasileira, mercearia e leiteria, capela e um pequeno cemitério, entre as décadas de 40 e 60 havia até um médico exclusivo da fazenda que atendia tanto os funcionários quanto os membros da família.

A propriedade foi adquirida em 1850 por um dos últimos homens ainda considerados fidalgos portugueses no Brasil, Dom Martim Vaz Guimarães (1811-1914), a construção da casa-sede iniciou-se prontamente e fora ser finalizada em tempo recorde, apenas 3 anos mais tarde, Guapará estava pronta para exportar suas primeiras sacas de café. Sabe-se que por cerca de 16 anos fora administrada pelo próprio Dom Martim, que em 1869 passou as funções administrativas a seu filho, Itamar Costa Vaz Guimarães (1849 - 1908), que assumiu diretamente as finanças da fazenda, mas o fidalgo nunca esteve longe da propriedade, e continuou morando na fazenda até o dia de sua morte. Em 1908, um dos netos de Dom Martim, Lúcio Fabiano Costa Guimarães (1871 - 1944) assume o controle da fazenda até 1942, e o ultimo proprietário de Guapará antes de sua dissolução e da venda da casa-sede fora o bisneto do fidalgo, Martim Lúcio Gomes Guimarães(1919 - 1966), que, mesmo vendendo partes da fazenda, manteve a produção cafeeira até a década de 60, vindo a total decadência com seu possível suicídio no ano de 1966.

Fachada Palacete
O modo de vida recluso dos Guimarães, sem grandes gastos ou extravagancias e a qualidade de seu café inspiravam confiança e longevidade em seus negócios, mas algo mudou com a entrada da década de 50. Martim Lúcio quase já não era visto, só aparecendo para fazer anúncios importantes, deixando os líderes dos funcionários cuidarem do trabalho do dia a dia, se distanciando cada vez mais da administração da fazenda. A principal hipótese para o abandono de seus afazeres como administrador, fora o acidente envolvendo sua filha, Maria Inácia Freitas Gomes Guimarães (1939 - 196?) e uma possível doença derivada desse acidente. Saiu na Tribuna do Povo em junho de 1958:

“A jovem de 19 anos, Maria Inácia Freitas Gomes Guimarães... foi encontrada as voltas da fazenda Guapará, onde mora, em meio ao cafezal, com ferimentos graves por todo corpo concomitantes com o ataque de um animal selvagem... as autoridades suspeitam que, ao adentrar as plantações de café, a jovem foi atacada por um lobo guará que tomara o local por seu território de caça... a encontraram e levaram para o físico residente no local, doutor Ignácio Guzzo...”

 A jovem fora vista poucas vezes nos anos subsequentes, sempre sentada, muito magra e com aparência doente, mas nunca fora encontrado um atestado de óbito, nunca fora feita uma cerimônia fúnebre, ou sequer um anúncio de sua morte, a garota simplesmente desapareceu. O que é fato é que no ano de 1966 seu pai, Martim Lúcio, fora encontrado morto nos aposentos de sua filha com um disparo de revolver na têmpora esquerda, o quarto não parecia estar em uso, mas estava completamente mobilhado e com todos os pertences da jovem. Após o falecimento do ultimo Guimarães, a fazenda caiu no esquecimento popular, seu território fora dividido e leiloado e a belíssima casa sede esquecida pelo tempo.

Jornal Tribuna do Povo - 5 de Junho de 1958



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